Uma história….

12/05

Céu tempestuoso. Uma folha voa livremente ao bel prazer do vento; vento sul, gélido. Tons de cinza permeiam as nuvens acima de mim. O sol dá seus últimos suspiros, emitindo fachos de luz no alto da copa das árvores. Sento no banco puído de cimento na beira da praia. Disperso na solitude de minha mente, ouço impávido o ribombar dos trovões anunciando a tempestade. Olho para os lados e me encontro ao lado de uma senhora, de cabelos grisalhos e óclinhos quadrados. À primeira vista ela parecisa triste mas, depois de prestar atenção, percebia-se que era o efeito do tempo. Seu sorriso era simpático, com tons de verde que aconchegavam. Sabedoria. Era uma aura de sabedoria que se sente em poucos.

Esforço-me por retribuir seu sorriso mas o faço de forma menos expressiva. Sentimentos não são o meu forte. Após alguns segundos volto-me novamente para o mar, onde ondas rebentavam nas pedras pontiagudas do píer. Gotas d’agua iam de encontro ao céu, a fim de unir-se com as gotas que em breve iriam cair.

De soslaio percebo a velha senhora ainda a me fitar. Incomodado com a insistente perscrutação, viro-me para ela novamente, encarando-a com ar de curiosidade.

- Teme a tempestade? – pergunta-me minha companheira de banco.

Sinceramente, não sei o que responder. Tal tempestade já era esperada e, de certa forma, com ansiedade. Tento buscar algo em minha anuviada mente, algo que pudesse ser uma resposta à indagação mas nada parece satisfatório, nada parece concreto.

Ela novamente me dá aquele sorriso sábio e simpático, os olhos profundos e escuros:

- Tempestades são como páginas em branco, imprevisíveis. Cada um dá a ela a conotação que quiser, o sentido que quiser. Faça dessa tempestade sua página em branco. – levantou-se e saiu, arrastando suas sandalinhas surradas e desgastadas. O vento, cada vez mais gélido e forte, batia às suas costas, levantando sua echarpe com certa graciosidade.

Continuei olhando-a se afastar vagarosamente até onde meus olhos alcançassem. Estava sozinho agora, a maresia enchia minhas narinas. Estava próximo, eu sentia nas minhas entranhas. Minha ansiedade estava aumentando, minha hora estava por vir. O inverno começara….

20/05 ~EDITED~

Angústia. Traduz exatamente o cenário. Eu, ali, parado diante do mar, prestes a sentir a fúria da natureza em minha pele. Com o vento rasgando minha face, sinto cada poro do meu corpo se arrepiar, seja pelo frio seja pela excitação.

As primeiras gotas de chuva finalmente atingem a terra. O tamborilar das gotas de chuva nas folhas das árvores se une ao marulho e o zumbir do vento numa sinfonia inigualável. Os deuses lançam sua ira sobre os mortais. Sobe o aroma da terra molhada. Gotas escorrem por minha fronte, chegando ao meu queixo, se preparando para um salto no vazio. A água começa a encharcar minha roupa e a tocar minha pele, o frio penetrando meu coração moribundo.

Acordo de minha contemplação sonâmbula. Deixo escapar um suspiro e percebo que havia prendido a respiração, como que esquecido de respirar. Permaneço quieto, refletindo sobre tudo que havia se passado. Passado. Como uma palavra pode causar tanto desconforto, tanto sofrimento?? Eu achei que a chuva fosse lavar estes sentimentos mas cada gota que toca meu rosto é deprimente.

Levanto do puído banquinho de cimento e começo a caminhar, não sei ao certo o porquê e nem para qual destino. Simplismente sentia que devia seguir naquela direção; que, ao fim do caminho, encontraria o que procurava, o que me movia.

Dando passadas em meio a poças, a chuva a bater no rosto, o frio deixado para trás, um passado a pesar nos ombros, um futuro desconhecido a ser trilhado. Algo estava por vir….

31/05 ~EDITED~

Incerteza. Caminhando sem rumo certo, trilhando a incerteza, um passo de cada vez, vou em direção ao horizonte. A tempestade parecia sentir minha persistência e resolveu castigar-me mais. As árvores que ficavam pra trás reclamavam sob a fúria do vento, coléricamente reclamando com um forte zunir. Estranha a sensação de estar andando sozinho numa tempestade e achar que está sendo seguido. As nuvens planando na mesma direção que caminho.

Apresso um pouco o passo na impaciência de chegar em algum lugar diferente, mudar a paisagem que ja se repete nitidamente em minha mente. As gotas de chuva transformam-se em pequenos pedaços de gelo. Castigo dos deuses pela minha desobediência? Talvez. Eu seguia em frente e não pararia, aconteça o que acontecesse.

Imagens obtusas começam a aparecer em minha mente. Imagens de um passado incômodo que, na tentativa de deixá-los esquecidos, marcaram minha alma como navalha na carne. Malditas sejam as memórias que sempre voltam para nos assombrar!! Maldito seja eu por ter feito o que fiz, por ter sido o que era!! Nada há de se fazer além de lamuriar o passado remoído que este cenário me traz a tona. Sim, era um dia igual a esse….

Não! Não posso deixar estas lembranças me dominarem! Passado é passado e não sou mais como era antes. Preciso seguir em frente, me redimir do que fiz, procurar uma redenção e buscar a paz tão almejada por minha alma.

O tempo passa. Não sei se caminho a dez, quinze minutos ou duas, três horas. O tempo escurecido pelas nuvens carregadas não me permite distinguir se ainda é dia ou se já anoitecera. O horizonte incerto, que se confunde com a terra, não permite nem mesmo distingui-lo do céu. O gelo que até pouco caía cedeu a uma brisa gélida mas suave, carregando uma garoa quase esquecida de cair.

A sensação de estar sendo seguido permanece. Achei que era por causa das nuvens mas, ao olhar para o céu agora, vejo-as aparentemente imóveis. Será que estou ficando louco? Será que esta chuva despertou uma insanidade a muito guardada em mim? Olho para os lados e nada. Olho para trás e vejo somente a rua deixada para trás; nenhuma sombra, nenhum movimento a não ser o das paginas de jornal sendo erguidas e arrastadas pelo vento. Ótimo! Como se não bastasse a tempestade, como se não bastasse minhas cicatrizes do passado, agora tenho que lidar com uma síndrome de perseguição.

Vejo mais a frente, debaixo de uma pequena sacada, uma sombra que se confunde com a escuridão do local. Esforço-me para distinguir as formas mas não consigo. Aproximo-me então e descubro uma manta suja, rasgada, feita de algodão cru envelhecida pelo tempo. Ao perceber minha aproximação, surge de baixo da manta um senhor aparentando não mais que cinquenta anos que se vira para mim com uma feição de dor e frio.

- O senhor está bem? Está muito frio aqui para o senhor permanecer – diz o senhor.

Somente agora, parado a olhar o mendigo, percebi que meu corpo doía. Vestindo apenas uma blusa T-shirt, uma calça jeans semidesbotada, meus tênis velhos e de sola desgastada não me protegera da chuva e do granizo. O gelo que me castigara tinha deixado marcas.

- Ah, isto? Não tem problema. Já estou acostumado. A vida ja me deixou várias marcas, umas mais profundas que outras.

Engraçada a preocupação do mendigo. Ao invés de se preocupar consigo mesmo, que está em posição pior que a minha, ele pergunta sobre meu estado.

- E o senhor, está bem? – perguntei.

- Ah, não se preocupe comigo. Minha condição não condiz com a aparência. Sei o meu caminho, já me encontrei. E você? Caminhando nesse tempo, deve perseguir algo muito importante.

Importante? Ainda não sei. Provavelmente, mesmo que não saiba o quê.

Despedi-me do senhor e segui meu rumo, perseguindo um horizonte que nunca se aproximava. A chuva invernal dera espaço ao céu estrelado; realmente anoitecera. Uma Lua pálida despontava atrás de mim, com ares de timidez que acusava ser aquela uma noite escura. Cai a noite…

13/07 ~EDITED~

Tranquilidade. Olhar para aqueles milhares de pontos luminosos, como pequenos querubins a me observar da abóbada celestial, sempre me desperta uma certa paz. Sempre fui mais ligado à noite. A lua mansa, as estrelas cintilantes, a escuridão transparecida do universo, sempre foram meu cenário predileto. Dizem que olhar para o céu noturno é olhar para o passado mas este passado me é tão distante, tão neutro, me leva a distâncias inimaginadas e me purificam, me separam da imundice do meu ser. Olhar para as estrelas é me encontrar com meu espírito refletido no céu, buscar meu âmago, minha essência e purificar-me de todo o passado, todo o presente e todo o futuro. A noite; momento este sempre esperado. O único momento em que encontro relativa paz no meu ser.

Lembro-me de uma conversa que tive com meu tutor em minha inocente infância:

- Olhe para o céu e me diga: o que vês?

- Não vejo nada. Somente negrume. – respondi.

- Somente isso, mais nada?

- Vejo pequenos pontos vacilantes ao céu; pequenas estrelas sem força para iluminar a noite.

- Elas realmente parecem pequenas de longe, sem brilho, sem força. Mas o que elas são realmente, a força delas, não se pode ver por estarem muito distantes. Assim também é o futuro, pequeno. Não se pode ver o brilho do nosso destino até que se aproxime dele. Olhe novamente para o céu e me diga quantas estrelas vês.

- São muitas e cobrem todo o céu.

- Exatamente. Assim como o número de estrelas, temos uma infinidade de caminhos para seguir e todos eles levam à um ponto de luz, a um objetivo. Eu já sou muito velho e percorri muitas estrelas em minha vida. Mas você tem um céu infinitamente maior que o meu, pode alçar vôos muito altos. Não desista jamais de perseguir a sua estrela pois alcançá-la cabe somente a ti e à sua persistência.

Reconfortantes memórias de um tempo que não voltará jamais….

Depois de todo este meu ritual noturno, depois de respirar o ar seco e frio da noite e sentir na pele a luz prateada da Lua, resolvi sentar-me um pouco no meio-fio, próximo a uma quitanda. Ascendi um cigarro, vício maligno que não me larga, aliviador de tensões ludibriante. Ali, sentado naquele meio-fio, sentindo a fumaça penetrar em meus pulmões sufocados, relaxei pela primeira vez em muito tempo. Sim, a noite faz isso comigo. Não me lembro a última vez que senti tamanha paz, mesmo em madrugadas passadas. Sempre julgado, pressionado, impaciente. Hoje, e provavelmente só hoje, sinto-me libertado das amarras da condenação a que fui submetido para o resto dos meus dias. O cansaço me torpe, minhas pernas latejam, minha cabeça teima em cair para os lados mas não pretendo permitir que seja vencido pela fadiga. quero aproveitar ao máximo este momento ímpar de regozijo da vida. Mesmo porque sei que, ao raiar do sol, tudo voltará a ser turvo e sem cor.

23/10

Gritos, correria e fumaça: tudo uma desordem. Ouço passos frenéticos, batidas de portas, pernas apressadas. Eu, pequeno ali no canto, abaixado sob a mesa, enrolado em meu lençol e agarrado em meu travesseiro, não compreendo tanta algazarra. Estou sozinho; sempre foi assim. Quando era apenas um recém-nascido fui renegado pelo meu pai, abandonado pela minha mãe, deixado atrás de um arbusto, no meio de um parque da cidade. Encontraram aos prantos e levaram-me para a maternidade. Fiquei la por 3 meses até possuir forças suficientes para sobreviver. De lá fui para o orfanato, uma casinha velha de pintura descascada que ficava no centro da cidade, em uma ruela pequena e pouco movimentada. Passei uma parte de minha infancia lá, até o incêndio. Sem ter orçamento para manutenção, tudo no orfanato era antigo e improvisado. Um curto circuito na fiação e labaredas se espalharam pelo andar superior do casebre. O fogo e a fumaça me sufocam. Os passos vão aos poucos diminuindo assim como as vozes. Agora só ouço o crepitar do fogo e o barulho longínquo de sirenes. Permaneço imóvel debaixo da mesa, observando impávido as bruxuleantes chamas se aproximarem de mim. Penso em tudo que passei durante meus poucos sete anos de vida, todas as desgraças e desavenças que me ocorreram e aceito o fim aliviador que se aproxima. Se tenho medo? Muito. Que criança não teria medo do desconhecido? Afinal, ter medo do escuro é justamente temer o que não se pode ver, o que é desconhecido. E ali, ajoelhado no piso desgastado de madeira do segundo andar do casebre, senti medo. Fechei os olhos e esperei que o desconhecido chegasse sem que eu o visse.

Acordo assustado, minhas costas latejando. Olho em volta e me vejo ainda encostado na parede da quitanda, sentado no meio-fio. Sinto o pulsar na pele de minhas costas. Aquelas lembranças fizeram-me relembrar de sensações esquecidas. Aquela queimadura sofrida naquela noite deixara uma marca permanente. Porém ela é especial pois marca o início de uma mudança radical em minha vida. Tudo começou naquela fatídica noite.

Respostas

  1. bela continuação ^^..aguardando por mais …

  2. nossa…que lindo…khelitto faz cada coisa linda com as palavras…


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